Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta

Falar de política sempre foi complexo, e ainda bem. Não é suposto concordarmos em tudo, até porque a nossa sociedade está construída sobre várias camadas, todas elas com diferentes nuances e com diferentes graus de preponderância no rumo que o mundo toma. Mas, em oposição a esta ideia, devo admitir que sinto que tudo na vida precisa de um equilíbrio e, neste momento, a nossa sociedade e o espectro político que nos governa (em Portugal, na Europa e no mundo) está altamente polarizado e convidativo a que muitos se apoiem nos extremos para se sentirem ouvidos.

Como é que isto acontece? Terão sido as redes sociais e o seu viciante algoritmo? Terá sido o algoritmo que favoreceu o discurso de ódio, ou vice-versa? As redes sociais são sinónimo de populismo ou são apenas um terreno fértil para vencer quem grita mais alto?

Tal como a rádio, há um século, as redes sociais são apenas um meio e nada têm a ver com a mensagem que por elas é proliferada. É, contudo, evidente que a atual (des)regulação que têm potencializa muito mais o conteúdo individualista e ofensivo. Afinal de contas “rage bait” foi a palavra do ano para o dicionário Oxford.

Mas então, como é que, por coincidência, quando as redes sociais conseguiram se tornar um dado adquirido no nosso quotidiano e conseguiram tomar conta de todo o nosso tempo e atenção, também estes extremismos começaram a florescer e reaparecer?

A realidade é que o discurso populista utilizado por políticos como André Ventura já existia há muito tempo, só não o era corporizado na figura de um político. Desde que me lembro que sempre ouço o meu pai dizer que eu podia ser tudo o que quisesse, menos político, justificando que era uma classe que só sabia mentir e enganar quem os elege, em resumo, uns corruptos.

Sinto a necessidade de esclarecer, esta opinião do meu pai não o fez um alvo deste campo político, mas nem todos são imunes. Este discurso surge de vários anos de políticas falhadas e de um sentimento de abandono que muitos sentem, seja em Portugal ou no resto da Europa. Quanto mais nos afastamos da virada do século mais se sente que a política deixou de ser feita para as pessoas, mas sim para os números. Foi, talvez, por isso que a extrema direita e o fascismo renasceram, e não é algo assim tão recente. A partir do momento em que a maioria dos cidadãos de uma nação deixam de acreditar na sua classe política e se sentem abandonados e que essa mesma classe vive à custa dos seus impostos, estão criadas todas as condições para que apareça um "D.Sebastião" a dizer que sabe o que elas sentem e que ele vai fazer diferente e as vai salvar. É assim que aqueles políticos que até eram democratas e lutaram por essa mesma liberdade podem também ser os percursores de uma nova onda autocrática, porque quando foram chamados a assumir responsabilidades ignoraram os seus cidadãos e agiram com opacidade e privilegiando os interesses pessoais. E é isto que sinto que muitos políticos ainda não perceberam, enquanto continuarem a tentar governar para preservar o sistema político que ergueram e não fizerem um esforço real para ter políticas humanas e de rutura com a tecnocracia instalada as pessoas vão continuar a alinhar no fascismo. E tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.